No Alentejo, quando o inverno se instala devagar e o frio pede lareira acesa, há um aroma que anuncia a época mais esperada do ano: açúcar quente, canela e massa dourada. Em Évora, esse cheiro sempre fez parte das casas, das cozinhas e das conversas interrompidas apenas pelo crepitar do lume. Assim nasciam os fuzis — não como produto, mas como gesto. Um doce simples, partilhado entre vizinhos, levado em travessas para as ceias e oferecido a quem chegava à porta.

 


Com o tempo, cada família guardou a sua versão, mas a essência ficou: um círculo de massa mergulhado em calda, feito para celebrar. Nas aldeias e nas ruas estreitas da cidade, os fuzis eram sinónimo de encontro. Quando os sinos tocavam e o Natal se aproximava, havia sempre alguém a dizer “já cheira a festa”.

 


Hoje, quando colocamos os Fuzis de Évora junto a uma árvore iluminada ou a uma mesa preparada para receber a família, estamos a repetir um ritual antigo. Não é apenas um doce; é uma tradição que sobrevive porque faz parte da identidade alentejana. Cada fuzil carrega uma memória: o jeito de avó, o ritmo das mãos, o tacho que fervia devagar, a paciência que as cozinhas de antigamente exigiam.

 


Ao partilhar este sabor no Natal, continuamos uma história que atravessa gerações. Os fuzis mantêm vivo aquilo que o Alentejo faz melhor: transformar simplicidade em património. São um pedaço de Évora colocado no centro da celebração, lembrando que a verdadeira magia da época sempre esteve nos rituais que passamos de mão em mão, de mesa em mesa, de família em família.

 


É essa herança que chega hoje às mesas de Natal — com o mesmo espírito, o mesmo toque artesanal e a mesma vontade de reunir pessoas à volta de um sabor que nunca saiu da memória.